Arquitetura se desenha com a direita ou com a esquerda?

No texto passado que publiquei aqui, muitos me questionaram se eu não estava tendenciado a boa arquitetura a apenas uma função, a social.

Este debate me fez refletir o quanto a “arquitetura social” pode se inclinar a um campo político especifico, e isso me incomoda profundamente.

Deixando a arquitetura de lado, no período de radicalização ideológica em que vivemos, você é condenado por estar em qualquer um dos dois lados, e até mesmo se estiver no meio – você será condenado de qualquer forma.

O questionamento que faço é: E na arquitetura? O projeto tem lado político?

Amigo leitor, já te adianto a resposta: Sim! O projeto tem lado político.

Infelizmente ou felizmente, nossa profissão possui visões ideológicas variadas que não escapam ao mundo real. Diga-me quem nunca teve um professor que disse “Isso não funciona! Isso não vende! Isso não dá certo no mundo real!” enquanto outro te encorajou dizendo “Experimente! Teste! A faculdade é a oportunidade de você experimentar! O projeto precisa ser democrático, abraçar a cidade!”, ninguém foge destes professores. E eu acho isso ruim? Não!

Ao contrário do que muitos possam pensar, é importantíssimo ter este tipo de embate (quando saudável, é claro). Nós arquitetos somos produto do nosso tempo, e pelo bem ou pelo mal refletimos nossos dilemas contemporâneos em nossa produção, assim como usar uma cor da estação ou um acessório da moda. O que faz a nossa profissão instigante não são as respostas, mas sim as perguntas, os dilemas.

Se você vai privilegiar os visitantes do seu projeto, assim como a vizinhança, ou se você vai pensar nos investidores e faze-los ganhar dinheiro, isso são decisões de projeto que podem variar de acordo com o seu cliente, o seu professor, ou quem quer que venha solicitar.

O projeto pode ter lado político e isso faz parte do jogo, horas capitalista, horas socialista, e essa decisão vai ser tomada após uma longa reflexão do arquiteto sobre o projeto. No entanto, como você pode se debruçar e se questionar sobre algo que já tenha uma preconcepção?

Se a sua visão e discurso estiver contaminado pela sua ideologia de mundo, você sempre à imprimirá no seu resultado final. O projeto pode ter lado político, o seu arquiteto não.

Niemeyer mesmo sendo comunista chegou a fazer trabalhos para “capitalistas” como o Copam e o Oscar Niemeyer Monumental. Apesar de possuir pequenas preocupações sociais nestes empreendimentos, o arquiteto não rasgou o escopo solicitado por seus clientes – que queriam ganhar dinheiro.

Hoje na região da Cracolândia em São Paulo, já existem diversos edifícios de habitação de interesse social entregues pelo Governo do Estado. Estes empreendimentos foram projetados com o que há de mais fresco no pensamento urbanismo brasileiro, os edifícios são interligados pelo térreo através de fachadas ativas, com a previsão de diversos comércios e o acesso livre do logradouro a estes espaços. 

Desde o início da ocupação dos prédios, os moradores vêm recolhendo assinaturas em abaixo-assinados e se reunindo em assembleias, tudo para impedir que as barreiras metálicas existentes ao redor dos prédios sejam retiradas, barreiras estas que tinham a função de tapume no período de obra dos edifícios.

Até novembro de 2018, dos 914 apartamentos já entregues, só 347 estão ocupados. Os novos moradores têm medo do entorno existente, e o projeto dos edifícios não contempla essa necessidade. Enquanto o projeto mirou em um conceito de comunidade e integração, os moradores desejam uma propriedade privada visando a segurança.

Cabe ao arquiteto dizer neste caso que a integração do entorno é mais importante que a segurança dos moradores?

O projeto é um ser vivo, que por um contexto natural possuí características próprias, não cabe à você molda-lo somente a sua vontade.

O arquiteto é um juiz de conciliação, onde cabe a ele ouvir as partes e chegar a um resultado final, não é papel dele advogar sobre as causas. Suas paixões jamais podem interferir nos seus julgamentos.

Não importa se você é #LulaLivre #PoderAClasseTrabalhadora ou #BolsoMito #ObrigadoCapitalismo, o projeto de arquitetura não está ali para atender você, está para atender ao seu solicitante e usuário.

Um comentário em “Arquitetura se desenha com a direita ou com a esquerda?

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  1. Parece que temos um belo dum texto por aqui senhores!

    Concordo plenamente que o arquiteto deva ser um “juiz de conciliação” e se utilizar de sua visão e conhecimento técnico para tomar as melhores decisões tanto para o cliente, quanto para o usuário, e para o espaço em si! Uma vez que o espaço é o objeto de estudo deste profissional em especifico! Nada é projetado no vácuo, nada é criado sem função, nada se constrói sem interesse! Por isso é extremamente correto dizer que ” não é papel do arquiteto advogar sobre as causas.”, uma vez que seu trabalho é maior do que sua pessoa.

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